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Mulheres contam o preconceito que sofreram no trabalho por causa do cabelo

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Quantas vezes você viu a descrição “boa aparência” em um anúncio de emprego? Pois saiba que essa expressão, ainda muito vista para descrever a imagem que a pessoa deve ter para ocupar aquele cargo, é associada a uma pessoa de cabelo liso e pele clara.

E, infelizmente, não se tratam de casos isolados. Esses modelos pré-estabelecidos acabam por atrelar um certo tipo de aparência com performance e comprometimento, fazendo com que haja preconceito com o cabelo cacheado e crespo, reduzindo as chances de mulheres que resolveram optar pelos fios naturais.

Preconceito com cabelo cacheado

Em fenômeno recente, no ano de 2017, um estudo conduzido pelo Google BrandLab mostrou que as buscas por “cabelos cacheados” superaram a procura por “cabelos lisos” no Brasil. 

Embora seja um marco exponencial, e que mostra uma mudança de comportamento e procura por cabelos mais naturais, esse resultado ainda não era – e não é – muito visto no mercado de trabalho.

A técnica gráfica Margarida Pires, 38 anos, de Santo André/SP, enfrentou a face do preconceito com o cabelo no início de sua carreira:

“Quando eu tinha uns 18 anos, eu trabalhava como auxiliar de escritório, nessa época eu arriscava algumas químicas para ‘baixar o volume’ do cabelo, em certo momento resolvi deixar o cabelo crescer naturalmente cacheado, mas por uns 6 meses vivi de escova e chapinha até o cabelo crescer o suficiente para o big chop. Quando finalmente cortei o cabelo ele ficou curto e totalmente cacheado, eu adorei. Mas chegando no trabalho meu chefe não conseguiu disfarçar o espanto e perguntou ‘que diabos eu tinha feito no cabelo?’, e em tom de brincadeira me ofereceu dinheiro pra ir comprar um pente, na época eu não reagi, mas hoje eu sei o quanto isso foi ofensivo.”

Mas essa não foi a única vivência de Margarida com comentários negativos sobre seu cabelo como elemento que diminuiria seu profissionalismo. Ela relata que houve um caso em que uma mudança capilar temporária expôs uma ofensa velada:

“Quando fiz curso técnico profissionalizante tinha cabelo cacheado, curto e pintava de ruivo bem claro. Certa vez resolvi mudar um pouco, tingi de castanho e fiz uma escova, quando a diretora da escola me encontrou no corredor veio me elogiar pela mudança e disse que meu cabelo estava mais profissional desta maneira, a tinta e a escova não eram definitivas, fiquei insegura, mas mesmo assim não mudei o cabelo.”

Preconceito com cabelos afro

Segundo um recente estudo publicado na revista Social Psychological and Personality Sciencea, da Universidade Duke, nos Estados Unidos, candidatas negras com penteados naturais ou tranças afro são percebidas como menos profissionais do que negras com cabelos alisados.

Dayana Jacintho, cientista social de 32 anos, sentiu na pele, e no seu cabelo crespo, o que mostra o estudo. No começo da vida profissional, ela trabalhou em uma confecção e desejava ser promovida para a loja da marca:

“Eu comecei a alisar o cabelo porque a dona da fábrica disse que eu tinha que ‘dar um jeito no cabelo’, porque não podia trabalhar na loja com o meu cabelo. Ela se ofereceu pra pagar minha progressiva, mas depois ia descontar do meu salário. Na época eu só ganhava 250 reais de salário e essa progressiva era mais cara que meu salário. Aí eu disse que não ia dar. Não fui trabalhar na loja por causa do cabelo e também porque não tinha vendedoras negras.”

O preconceito com cabelos afros é sentido e visto por muitas mulheres dentro das corporações. A pesquisa “As faces do racismo”, elaborada pela Central Única das Favelas (CUFA), traz números sobre os desafios de pessoas pretas e pardas no mercado de trabalho brasileiro –  e os resultados aqui também não são positivos. De acordo com a pesquisa, 76% dos trabalhadores afrodescendentes conhecem alguém que enfrentou preconceito.

Há esperança de mudança? 

Diante da busca incessante por profissionais com “boa aparência”, ou seja, priorizando pessoas com cabelos lisos e excluindo crespos e cacheados, uma lei da cidade de Nova York busca combater a discriminação. 

A medida descreve que criticar ou constranger pessoas com base em seus cabelos será considerado discriminação racial, e que os cidadãos nova-iorquinos tem o direito de ter “cabelo natural, em estilos de dreadlocks, trancinhas, torções, bantu knots, raspado, afro”.

Embora esse seja apenas um sopro de esperança dentre anos de exclusão e preconceito com cabelo nos ambientes corporativos, devemos encará-lo como um primeiro passo para espaços mais diversos e plurais. Mais do que fazer diferente, é preciso aceitar as diferenças e características individuais.

Se esse é um assunto que te interessa, acompanhe também o site transformese.com.br, que traz temas e discussões atuais sobre comportamento, raça e cultura. Acesse!

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